Notas de uma mente inquieta

O agente secreto

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Não consegui assistir o filme na telinha na primeira rodada que houve antes do anúncio do Oscar. Adoro os filmes do Kleber Mendonça Filho, desde os tempos de outrora onde acompanhava de perto as produções nordestinas, e este - já de longe - me pareceu ultra-mega-promissor. Na rotina atual, infelizmente, está bem difícil de conseguir ir ao cinema, dá para ver pelas postagens que aqui faço quase não tem nada dos filmes em cartaz. Última vez que consegui foi em Zootopia 2 por motivos de filme de criança.

Enfim, fiz um esforço e consegui ir. Valeu muito a pena!

Demorei para escrever esta postagem, tirei alguns dias para digerir a obra. Tem tantas camadas além da superfície, do que é imprimido na tela, que as sensações precisam ser remoídas e filtradas. De uma maneira muito abrangente o filme fala sobre memórias. Sobre fatos perdidos no tempo-espaço. Em como a realidade é pautada por estes momentos apresentados na memória, as vezes viva como o presente, as vezes uma mera lembrança que sequer é sua, você recebeu ela. Dado esta natureza da exploração que tentarei fazer aqui neste texto, aviso com antecedência que será inevitável não ter algum tipo de spoiler.

Recentemente postei por aqui um print onde o Kléber Mendonça Filho brinca com a ideia de narrativa em 3 atos. Em como somos acostumados a encarar verdades sobre a sétima arte que nada mais são que "caixas" que buscamos en-"caixar" toda e qualquer história. Ele já é bastante acostumado a brincar com essas "caixas" em seus filmes que sempre se apresentam com uma construção além do comum, muitas vezes indigesto para um público menos acostumado. E mais uma vez não foi diferente. Começando pelo título: Marcelo não era um 007, não temos aqui um filme de ação hollywoodiano, apesar de o filme brincar com isto ao longo de toda a execução, nas cenas com mais ação, nós temos o terror. Nas cenas com mais drama, temos o humor. Mas e vilão? coadjuvantes? É difícil sequer definir um gênero... Precisa?

O enredo fala da tentativa de fuga de um professor universitário para a cidade de sua família devido a uma perseguição por parte de um membro do então governo. Isto que acontece na década de 70 no Brasil, em plena ditadura militar. Temos aqui uma belíssima reconstrução de uma Recife "de época". E isso é engraçado de se mencionar... não basta aplicar um filtro de super8, ou uma distorção na voz, a imersão acontece nos detalhes. Como as pessoas se vestem, os hábitos que elas tinham, o desenho de uma realidade que existe apenas na memória.

Quem é a pessoa assassinada no começo do filme? Quem é o dono da perna engolida pelo tubarão? Tudo o que sabemos sobre eles são interpretações pinçadas através de comentários avulsos ou factóides narrados no jornal local, onde a Perna não é uma pessoa é um ser sobrenatural. Sabe os espancamentos a população LGBT+ que aconteceram no centro? não foram pessoas, foi aquela Perna. E assim a memória é perpetuada, assim é o registro da História (com H maiúsculo mesmo).

Armando é só mais uma dessas pessoas perdidas na memória. Um pai afetuoso, um professor companheiro, um pesquisador promissor tem toda a sua vida resumida a conversas gravadas nos arquivos esquecidos de uma universidade particular aleatória. Nem o seu obituário registra minimamente a verdade. Mas o que é a verdade afinal? Sequer seu único filho, seu legado vivo, lembra-se dele.

Não acho que o filme ganhará o Oscar de melhor filme, ou o Wagner Moura ganhará de melhor ator, e não é por falta de mérito de ambos. O filme ter alcançado tanto reconhecimento internacional mostra o quão tecnicamente apurado ele foi desenvolvido mas acho muito difícil os gringos conseguirem captar tantas nuances profundas que enriquecem esta obra. Pega o brilhantismo do personagem da dona Sebastiana: um gringo, um brasileiro, um nordestino, um periférico e um LGTB+ tem visões completamente diferentes sobre a importância dessas sebastianas que ainda existem por aqui.

#cinema #filmes #review